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EDITORIAL

Presunção de bolha

A bitcoin é hoje um instrumento instável e especulativo

Anúncio de bitcoin em uma loja em Tóquio, Japão.
Anúncio de bitcoin em uma loja em Tóquio, Japão.

Por mais provável que seja um futuro dominado por moedas virtuais, o presente ainda é confuso e preocupante. A credibilidade da bitcoin topa com um muro dissuasivo: poucos sabem exatamente qual é o fundamento de sua virtualidade (blockchain) ou o suporte de sua liquidez e muitos daqueles que o sabem, desconfiam. Também não conta com o benefício do hábito. Para o cidadão comum, a bitcoin é uma coisa estranha que é percebida de vez em quando como um eco distante. O cerne da questão é saber se deve haver mais gente envolvida para endossar o hábito da bitcoin. E, para essa pergunta, só há respostas vagas. Nada impede que os governos adotem uma moeda virtual no futuro. Afinal, são eles que garantem qualquer moeda e não há motivo para não garantir um pacote de bits se a mesma coisa já é feita com um pedaço de papel. Mas esse não é o grau de concretude atual de moedas virtuais; e tampouco é esperado em anos imediatos.

Bem, esta é a história. A bitcoin se valorizou mais de 700% desde sua criação e cada uma delas é negociada hoje em torno de 8.000 dólares (cerca de 25.800 reais). Dizem que algumas Bolsas criarão mercados de futuros em bitcoins e que grandes lojas de prestígio permitirão pagar com bits. Bom. Mas tudo o que foi dito acima não deixa de ser uma descrição eufórica que se resume em um único conceito: volatilidade. É muito perigoso para os investidores e pouco prático para qualquer sistema monetário que se preze basear as trocas econômicas em uma unidade de medida que apresenta oscilações tão fortes em resposta a pequenas incitações ou mudanças eletrônicas ou comerciais. A bitcoin é hoje um instrumento instável e especulativo e não são poucos os que preveem que “vai acabar mal”. Mal para aqueles que tiverem apostado nela, é claro.

O modelo de evolução é o de uma bolha. As forças de oferta e demanda não operam nesse universo, portanto a lógica de sua projeção não pode ser apreendida. E essa é a razão pela qual deve ser aplicado o princípio “Na dúvida, abstenha-se”. Não é sensato se envolver em cotações cuja origem é pouco conhecida, carecem de garantias conhecidas para sua liquidez e experimentam fortes aumentos de valor em períodos curtos.

Também seria necessário responder a duas perguntas. A primeira é: se a bitcoin e outras moedas virtuais forem um fiasco, aceitarão sua responsabilidade pessoal e intransferível e pagarão os custos devidos ou, pelo contrário, pedirão reparações, exigirão compensações e culparão os governos e os reguladores por um eventual fracasso? Porque a especulação geralmente se alimenta da desculpa “Ninguém me impediu”. O avesso dessa falácia é a tendência natural da regulação a ignorar os riscos potenciais e rapidamente sufocar os danos quando já aconteceram.

Quando os governos darão sua garantia e seus poderes de controle a uma moeda virtual? Também nesse ponto as respostas brilham por sua ausência. Afugentados os espectros da crise financeira, parece oportuno hoje saber o que os bancos centrais e os poderes políticos pensam sobre qual deve ser o futuro do dinheiro e da moeda, que ao fim e ao cabo são ferramentas de intercâmbio cuja fisicalidade e utilidade podem ser melhoradas pela tecnologia. Aval, cobertura, controle e segurança são as deficiências das moedas virtuais de hoje; todas essas garantias só podem ser dadas pelas instituições.

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