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Efeito Guardiola: a Inglaterra domina a Champions

Os clubes da Premier League protagonizam a fase de grupos da competição europeia

pela primeira vez desde 2006. Técnicos e jogadores refletem sobre as causas da mudança

Guardiola comemora com seus jogadores a vitória no estádio do Huddersfield. Ampliar foto
Guardiola comemora com seus jogadores a vitória no estádio do Huddersfield. REUTERS

O dinheiro para contratar técnicos inovadores e competir com vantagem no mercado de atletas está provocando uma lenta transformação no futebol inglês. Uma mudança profunda que se projeta na Champions League. A injeção financeira que as televisões proporcionam à Premier League desde 2016 começa a repercutir nos resultados da principal competição de clubes do continente, após uma década de hegemonia espanhola. Manchester United, Manchester City, Liverpool, Tottenham e Chelsea pisam mais forte que nunca.

“É parte de um ciclo”, reflete Fernando Torres, que jogou no Liverpool e no Chelsea entre 2007 e 2014. “Depois do êxodo de grandes jogadores e treinadores alguns anos atrás, os times se enfraqueceram. Com a chegada de técnicos como Guardiola, Klopp, Mourinho, Pochettino e Conte, os grandes jogadores voltaram a se interessar em ir jogar na Premier sob as ordens dos melhores. Pogba, Morata, Pedro, Salah, Gabriel Jesus, De Bruyne, Ibrahimovic... Parece que nos próximos três ou quatro anos os ingleses voltarão a estar no topo.”

“Não é só uma questão de poder econômico. O futebol inglês se abriu ao resto do continente”, diz Fernando Llorente

As equipes inglesas nunca antes haviam começado com tanta força na competição continental. United, City, Liverpool, Chelsea e Tottenham lideram seus grupos. O último precedente similar, com quatro equipes inglesas à frente nesta fase, foi na temporada 2006-07. Há uma década.

Juande Ramos, que treinou Tottenham entre 2007 e 2008, acha isso natural. “Com os orçamentos que os clubes ingleses têm, não é nada extraordinário que sejam primeiros ou segundos de seus grupos”, diz o técnico espanhol, que cita o faturamento anual dos clubes da Premier League: cerca de 4,4 bilhões de euros (17 bilhões de reais) na temporada 2014-15, em contraste com a Alemanha (2,4 bilhões de euros) ou Espanha (dois bilhões).

“Muitas vezes”, prossegue Juande, “os ingleses enfrentam na Champions adversários que, na melhor das hipóteses, têm a metade do seu faturamento: o United maneja um orçamento de 700 milhões de euros (2,7 bilhões de reais), enquanto que seu rival mais forte no grupo, o Benfica, tem 150 milhões. Não é nenhuma surpresa que sejam os primeiros! O clichê diz que são 11 contra 11. A realidade é que isso não reflete a verdade”.

Juande observa que, graças à vantagem financeira, o futebol inglês passou a atualizar suas ideias em matéria de preparação física, metodologia tática e de treino, entre outras questões que ancoravam os clubes a ideias tradicionais amplamente superadas neste século. Fernando Llorente concorda. O atacante do Tottenham, que conseguiu um empate e uma vitória contra o Real Madrid nos dois jogos da fase de grupos, acredita que os ingleses são competitivos na medida em que se aproximam da mentalidade de seus adversários da Espanha, Alemanha e Itália.

“Esta é uma tendência há anos”, reflete Llorente. “Mas não é só uma questão de poder econômico. O futebol inglês se abriu ao resto do continente. A maioria dos treinadores das equipes grandes se formou fora: Pochettino na Espanha, Mourinho em Portugal e na Espanha, Guardiola na Espanha, Conte na Itália... Isto faz com que cada jogo da Premier seja um mundo. Você nunca sabe o que vai encontrar. Os times estão muito trabalhados taticamente, e cada um propõe coisas completamente diferentes. O ritmo físico e as dificuldades táticas são muito elevados. Isto melhorou o nível competitivo, o que se nota quando essas equipes disputam a Champions”.

Mauricio Pellegrino, manager do Southampton, mostra-se ligeiramente cético: “Acredito que sejam fases. Na última década a Espanha sempre mandou na Champions e na Europa League. Atualmente há na Inglaterra quatro times muito fortes. United, City, Tottenham e Chelsea têm projetos consolidados por treinadores que estão há um tempo, e com ótimos jogadores”.

Os bons jogadores que Pellegrino menciona são consequência, em boa medida, do dinheiro que Juande menciona. O ranking do portal Transfermarkt dos clubes que mais dinheiro investiram em contratações nos últimos cinco anos é esclarecedor: City (879 milhões de euros, ou 3,4 bilhões de reais), United (777 milhões de euros), Chelsea (691), PSG (684), Barça (637), Juventus (584), Liverpool (503), Atlético (474), Real Madrid (463), Monaco (454), Roma (427) e Tottenham (418).

“Talvez não tenham conseguido as estrelas maiores, mas controlam o escalão abaixo”, observa Juande. “Não regulam economicamente absolutamente nada. E quem chega às quartas de final da Champions, salvo acidente? A norma é que os clubes com orçamentos mais altos. O potencial real dos times se verá a partir das quartas de final.”

A atualidade pode ser enganosa, mas o indício é claro. O precedente mais parecido com a atual fase de grupos, na temporada 2006-07, resultou em semifinais notavelmente inglesas: United, Chelsea, Liverpool e Milan. O título, entretanto, foi para o Milan.

Uma mudança de mentalidade

“Cada concentração era como um casamento”, conta um treinador espanhol, para descrever a surpresa que teve ao descobrir o espírito amador que reinava há alguns anos no futebol inglês de mais alto nível profissional. Os jogadores espanhóis e italianos dos clubes mais importantes estavam há mais de uma década cuidando de cada grama que ingeriam, vigiados por fisiologistas e nutricionistas, mas seus colegas ingleses continuavam devorando muffins e bebendo álcool sem controle antes das partidas. O trabalho de campo tampouco diferia dessa aproximação sentimental e irreflexiva. O estranho não é que o United, Chelsea ou City liderem a tabela de classificação da Champions. O que é raro, considerando seus recursos materiais, é que isso não tenha acontecido com mais frequência.

O influxo de treinadores estrangeiros, como Arsène Wenger, pioneiro, desde sua chegada ao Arsenal em 1996, da introdução de novos métodos na Premier, contribuiu para a mudança. O espanhol Lauren, um dos pilares do Arsenal fundacional de Wenger, argumenta que a transformação vem de baixo: “Houve um salto qualitativo no futebol inglês a partir do futebol de base, como se viu nas seleções sub-17 e sub-21. Os ingleses sabem que a Liga espanhola tem os melhores jogadores e eles foram espertos para formar os melhores técnicos: Guardiola, Pochettino, Mourinho, Klopp, Wenger... Essa preparação está sendo notada, especialmente no caso de Guardiola”. “Esses treinadores fizeram com que o futebol inglês mudasse substancialmente”, disse Lauren. “Raras vezes vemos equipes jogarem esse futebol direto que víamos nos 90, nem sequer o Stoke ou o Leeds, os mais conservadores. Agora vemos mais toque. Jogam direto só se saem no contra-ataque. Antes o faziam como norma”.

Auxiliar de Rafa Benítez no Newcastle e de Nuno no Valencia, o escocês Ian Cathro é um dos jovens treinadores britânicos marcados pela nova onda continental. “A evidência mais chamativa é que cada ano que passa as equipes inglesas são menos inglesas em seu estilo porque tentam controlar mais o jogo por meio da bola. Nota-se a influência dos treinadores, especialmente nas equipes que estão na Champions. A cultura dos torcedores e a tradição na Grã-Bretanha diziam que até os 45 minutos do segundo tempo tudo podia acontecer no futebol. Agora essa crença já não tem amparo na realidade, já que as equipes são mais capazes de controlar a partida quando estão à frente no marcador.”

“Ninguém quis mudar até que as novas ideias demonstrassem que são claramente superiores às velhas”, disse Cathro. “Diria que agora a porta está aberta: alguns técnicos a atravessarão e outros, não. Mas a verdadeira transformação cultural não será completa enquanto não for um treinador britânico a se posicionar à frente de um desses grandes clubes para comandar a mudança. Precisamos de um Guardiola nascido nas ilhas.”

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